Pragmatismo feminista: quando o discurso engole o ato.

Estou há, aproximadamente, seis meses pensando em escrever sobre isso. A demora se justifica por motivos muito particulares; o primeiro é que evito me envolver em polêmicas, não por covardia, mas por ter medo de que me faltem argumentos ou paciência durante a discussão; o segundo, é que eu sinto uma certa resistência, muito minha, em escrever sobre coisas baseadas no meu achismo e não em autores reconhecidos pela academia. Quero dizer, não sou a porta-voz de uma geração ou de um grupo social para, deliberadamente, falar por ele todo. Todavia, porém, aqui estou.

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Origem da charge aqui.

Acompanho um número significativo de pessoas nas redes sociais. Divido minha utilização nas plataformas conforme o segmento de pessoas. Acho que cada rede tem um público direcionado – pelo menos é assim que as utilizo. Por exemplo: no Facebook, familiares e amigos próximos; no Instagram, futilidades e comidas gostosas; no Twitter, colegas de profissão, veículos de comunicação e portais independentes. Óbvio que não é uma regra. Há pessoas que estão presentes em todas as redes sociais, outras só em uma. Isso vai da proximidade e do interesse que parte, tanto de minha parte, como da outra pessoa em ampliar o vínculo para demais plataformas. Trabalhando na imprensa, que é o meu caso, vez ou outra me deparo com solicitações de pessoas com quem nunca me encontrei, mas que me conhecem por causa do trabalho e, consequentemente, têm muitos amigos em comum. Geralmente, não aceito essas pessoas por, justamente, não conhecê-las. Elas, no entanto, me seguem e acompanham as raras publicações pessoais que surgem vez ou outra. Mas não é sobre estas pessoas – ouvintes – que falarei aqui, é sobre as outras: as que eu acompanho.

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Origem da frase aqui.

Recentemente, a campanha #DeixaElaTrabalhar, criada após inúmeros episódios de agressão contra jornalistas esportivas em estádios, virou os holofotes da mídia para um assunto tão velho quanto a própria humanidade: machismo. Ao falar do machismo, obviamente, é impossível não citar o feminismo, movimento que luta por igualdade social, profissional, identitária, política e econômica entre homens e mulheres. O feminismo, inclusive, é tão velho quanto o machismo, uma vez que teve sua ascensão, rotulada como feminismo moderno, no contexto social da Revolução Francesa, por volta de 1789. De lá até aqui, o movimento participou de revoluções com grande importância no desenvolvimento da sociedade mundial, como direitos de pessoas negras, asiáticas e latinas, bem como movimentos em busca de direitos homossexuais e anti-guerra – especialmente no Vietnã, durante a década de 1960. Enquanto o machismo, definido pelo Dicionário da Real Academia Espanhola (RAE) como atitude de arrogância dos homens contra as mulheres, preconiza o subdesenvolvimento da mulher, o feminismo, conforme definição da filósofa, Celia Amorós, reclama a igualdade com base numa irracionalização do poder patriarcal e uma deslegitimação da divisão sexual de papéis. Logo, podemos simplificar os sentidos de machismo e feminismo assim: um prega domínio, superioridade e supervalorização do homem sobre a mulher, enquanto o outro busca a igualdade, consonância e ascensão social para ambos os sexos. Logo, um não é o contrário do outro e isso está claro, né?!

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Origem da figura aqui.

O que me levou, de fato, a escrever sobre este tema, no entanto, não foram atos machistas ou a luta feminista, foi o discurso. E não me refiro à determinadas lideranças políticas que acham que mulheres têm salários menores porque engravidam, ou a apresentadores que usam piadas de duplo sentido para constranger mulheres ao falar de futebol, muito menos sobre a quantidade de matérias ‘jornalísticas’ que exaltam a beleza das esposas de alguém famoso. Bater sobre uma tecla repetidas vezes pode afundá-la, e essa não é minha intenção. O discurso ao qual eu me refiro é o das mulheres, minhas semelhantes, “manas”, como está na moda chamar. Nas redes sociais, eu acompanho mulheres de variadas idades e gerações, cada uma com suas particularidades e experiências de vida, e todas elas têm o movimento feminista como bandeira em comum. Além da bandeira em comum, o discurso repetitivo e uma certa arrogância em relação a quem não o compreende, também. “Machistas não passarão”, “chega de fio fio”, “meu corpo, minhas regras”, “sejamos empoderadas”, “mulher machista é pior que homem” e tudo mais. Eu concordo que machistas não passarão, que o meu corpo segue as minhas regras, torço e batalho por mais mulheres empoderadas, e que também batalhem pelos seus direitos – equânimes – na sociedade. No entanto, por que tenho a sensação de que há uma disputa entre algumas (não todas, algumas) para ver quem é a mais feminista, ou, ainda, qual é a melhor vertente do feminismo. Bem, as vertentes do feminismo são inúmeras, abrangendo as inúmeras possibilidades do que as mulheres são; árabes, asiáticas, negras, liberais, interseccionais, transsexuais, lésbicas etc. Não obrigatoriamente, você precisa se autodenominar algum deles, mas conhecer e compreender que, como qualquer outra causa, existem diretrizes que buscam abraçar cada uma que dele faz parte, de acordo com as suas características e crenças. Talvez não concordemos com tudo e todos, mas é preciso respeitar sua importância e significado para os que se inserem nele.

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Origem da figura aqui.

Um exemplo de reclamação constante que vejo, por parte das mulheres que acompanho, é sobre o comportamento de construtores, que costumeiramente elogiam, de forma deselegante e invasiva, as mulheres que passam em frente às obras. “Gostosa”, “ê, lá em casa”, “essa tá pra mim, hein?!”. Não é legal caminhar e ser surpreendida com um grito – geralmente assustador – enquanto se caminha na rua. No entanto, eu já presenciei situações em que o assovio do pedreiro foi incômodo, mas o assovio de um rapaz bem vestido não. Ou, a encarada de um homem mais velho foi motivo de xingamento, quando veio de um jovem esteticamente aceitável, não. Me questiono se o pedreiro, em algum momento de sua vida, foi informado de que abordar uma pessoa de forma abrupta é falta de respeito e deselegância. Ou, ainda, que por mais que ele acredite que há uma valorização da beleza feminina em seu elogio, é constrangedor para quem recebe o cumprimento. Acredito que isso, no entanto, foi dito para o rapaz que passeia de carro e chama alguém de ‘gostosa’, ou ao rapaz jovem que frequentou escola particular durante todo período fundamental. Ratifico que, em nenhum momento, tem-se o interesse de desmerecer ou inferiorizar a capacidade intelectual de quem trabalha na construção, mas é um fato (demonstrado aqui, inclusive) que as pessoas que atuam nesta área, em sua maioria, não possuem grau de escolaridade satisfatório – ensino médio ou superior completos. Diferente do que acontece com a ala beneficiada – em sua maioria, branca – da população. Essas pessoas, desprivilegiadas em uma sociedade injusta, têm culpa da falta de acesso à educação? O preconceito não é a consequência da ausência de conceito, ou seja, noção, informação e conhecimento? O machismo, por sua vez, não é também uma forma de preconceito, consolidado em uma suposta superioridade masculina?

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Origem do GIF aqui.

Não pretendo, aqui, responder quaisquer questionamentos ou construir verdades absolutas. Meu intuito é apenas levantar um debate que fortaleça, principalmente, a luta das mulheres por igualdade política, social, econômica e identitária, diante de uma sociedade predominantemente dominada por um patriarcado arrogante e ditatorial. Reclamar do assovio de um pedreiro vai mudar, de fato, alguma coisa? Será que instruir outra mulher a promover sua valorização, competência e ambição para que unifiquemos, cada vez mais, a força da mulher não terá mais efeito? Ter uma mulher empoderada (já que usam tanto essa palavra, mesmo sem saber o que significa) é muito maior e importante do que, me desculpem, a futilidade de um assovio. Calma! Não tô dizendo que temos que nos calar, pelo contrário. Temos que gritar, meter o dedo na cara mesmo, sem medo. Dizer que NINGUÉM tem o direito de nos dizer o que bem entende porque somos seres humanos e merecemos respeito, independente de onde estivermos e do que estejamos fazendo. Mas, antes disso, precisamos tomar consciência da força que temos juntas. “Estar juntas” não é, somente, das mulheres que te cercam e te agradam, mas de todas as mulheres, desde a doméstica do prédio, até a atual do seu ex-namorado, passando pela chefe-megera e a inimiga das suas amigas. E para estarmos JUNTAS, de fato, é necessário mais do que um discurso de “manas”, ou uma frase de “empoderamento” em status do Facebook. A luta feminista é muito dura e árdua para ser minimizada em 280 caracteres.

 


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